Avatar

O filme Avatar me deu um presente: a vontade de escrever sobre alguns temas que pude perceber no contexto, e lamento ter deixado passar alguns, o que certamente fiz. Avatar desperta a reflexão sobre a maneira que a raça humana se desenvolveu sempre alterando o seu meio, adaptando-se a este ambiente alterado extraindo dali o máximo, dessa forma alterando seu meio novamente e assim sucessivamente. Karl Marx apontara esse comportamento, mas não sei se seus olhos teriam alcançado o retorno que o “meio” daria à raça humana como uma tentativa desesperada de reequilibrar o que nós chamamos de natureza.

Em um momento do filme, o protagonista diz aos habitantes de Pandora que os homens do céu (nós, com vergonha o digo) se separam de sua mãe (natureza) e estavam prestes a fazer o mesmo com a deles para ocupar o território onde vivem esses humanóides, os Na’vi. E essa é a trama: em busca de um metal altamente precioso, os humanos traçam a estratégia de enviar alguns Na’vi criados em laboratório a partir de DNA humano e alienígena e que serão controlados remotamente através de ondas neurais. O plano dá errado quando o Jakesully, avatar de um Marine paraplégico, passa dos limites ao se envolver com uma Na’vi e com a própria natureza misteriosa de Pandora e a relação mais do que harmoniosa entre essa natureza e seus seres vivos.

A primeira reflexão vem sobre o protagonista. É através de seu avatar que Jake Sully volta a andar, pular, correr, cavalgar e ainda experimenta novas sensações através de suas novas pernas, o que inclui guiar um ser alado indomável, salvo se dominado por um Na’vi. Como o ser humano, falho como todos nós, seria capaz de cumprir uma missão se voltando contra tudo aquilo que mais lhe fazia falta? E mais: lutando por algo que não lhe fazia sentido nenhum, pois não era ele o escolhido para a missão, mas seu irmão gêmeo morto dias antes do Dia D. Sendo assim, controlar o avatar de seu irmão não só representava uma oportunidade para “renascer” como lhe dava a responsabilidade de preservar aquela condição e o meio que seus novos “irmãos” dependiam. Fica claro então que a tecnologia pesquisada pela Dra Grace, que permitia o controle dos avatares por ondas neurais, era a chave do mistério daquele planeta, pois nada mais era do que a reprodução numa escala muito menos complexa da simbiose entre todos os seres do planeta. O mesmo controle que Jake e outros humanos tinham sobre seus avatares, os Na’vi tinham sobre criaturas de montaria, e que a Mãe Natureza tinha sobre seus filhos. E é a cena final que comprova isso.

A segunda reflexão é sobre a guerra. Em seu videolog, Jake registra que “os heróis lutam pela paz, então acordam”. Ora, é bem verdade que os que lutam numa guerra o fazem pelos objetivos que muitas vezes estão implícitos na “paz”. Todos os lados lutam pela paz, esta que será imposta à maneira daquele que vencer, e que consequentemente contará a história para gerações futuras deixando o lado perdedor como o vilão e grande responsável pelas mortes. E é impossível analisar um conflito sem estar nos dois lados: podemos dizer que os últimos vencedores das guerras modernas lutavam pela paz? Ou podemos encontrar em Avatar mais uma analogia sobre o uso da força para extrair recursos naturais de um território ocupado por uma nação dada como hostil (alguém achou as armas de destruição em massa no Iraque?) após a planejada frustração de um ação diplomática, que justificaria o recurso da guerra como continuação da política por outros meios. Se no Iraque tivemos inspetores que nada encontraram e tentaram convencer alguém de fazer algo que já não fazia, em Avatar temos Jake com a missão de convencer o líder Na’vi a levar seu povo para longe de sua terra natal, assim como acontece numa ironicamente chamada Terra Santa. Quando é válido ir à guerra? Quando se defende algo de muito valor. E quando é válido ir à guerra? Quando dizemos que algo de muito valor é nosso e está em poder de outro. Enfim, recursos, território, deuses, mulheres, triunfos, poder… tudo isso já foi tomado e defendido. E cada guerra que termina cria o motivo para a próxima guerra e a torna justificável aos olhos dos que sobrevivem para escrever a história.

Por terceiro, mesmo num futuro muito distante, ainda temos a questão comercial fomentando o desenvolvimento de novos recursos bélicos cada vez mais destrutivos, prontos para destruir o que não precisaria ser destruído caso não tivéssemos criado tantas armas. Tema já abordado em livros de economia e filmes sobre guerra, ninguém consome arsenais e, uma vez que são criados, precisam ser usados de alguma maneira, ou se trava o desenvolvimento. Sempre foi assim na nossa história, sempre será assim até que tenhamos destruído tudo ao redor. Cada produto consumido no mundo financia a guerra e o desenvolvimento de tecnologias destrutivas.

Por fim, é destruindo tudo ao redor os humanos recebem a mais hostil das respostas. Soando como uma rima maravilhosa no filme de Avatar, o ataque de animais respondendo ao chamado da mãe natureza é uma clara analogia às reações naturais devastadoras que atingem diversos pontos do planeta. Embora eu não acredite no que é dito sobre o aquecimento global, que hoje é tido como moeda internacional para frear o desenvolvimento de nações mais atrasadas do ponto de vista econômico e industrial, acredito que desastres naturais como tsunamis, inundações e ventos devastadores são reações à maneira que consumimos o planeta, ainda que não faça o menor sentido.

Paradoxalmente, como somos, muita tecnologia foi usada para que essa história fosse contada no cinema, muitos produtos de plásticos serão criados para venda e logo se tornarão mais lixo, mais poluição, muitos DVD piratas serão vendidos para financiar mais crimes, muito combustível queimado, e mais exploração de recursos, para que todos esses produtos cheguem às mãos de todos e para que o investimento feito retorne às mãos de quem não fez nada disso de graça, embora mereça aplausos e um lugar eterno na história do cinema.

This entry was written by baldin , posted on Sunday January 10 2010at 11:01 am , filed under Uncategorized and tagged , , , , . Bookmark the permalink . Post a comment below or leave a trackback: Trackback URL.

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